terça-feira, 17 de novembro de 2020

Histórias vividas com o Fluminense: 7 - O encontro com Ademir.

 

DEVOLVAM O NOSSO FLUMINENSE!

Depois da apresentação dantesca diante do Grêmio pensei estar livre de novos exemplos de como não se deve jogar o futebol.

Ledo engano, veio o jogo com o Palmeiras e não é que dessa vez o Odair conseguiu se superar?

Começando por barrar um titular que voltava de uma convocação para treinos com a Seleção principal e depois, ao tentar corrigir a mancada, colocá-lo para jogar pelo meio quando todos sabem que o seu forte é atacar pelas pontas.

E que esquema tático foi aquele de colocar um atacante para ajudar a marcar o lateral esquerdo adversário? Não deveria ser o inverso, o lateral preocupado com o atacante?

Confesso que nunca vi tanto medo assim de um time que praticamente não tinha nenhum titular em campo.

E nem é preciso falar das escalações estapafúrdias de atletas que não deveriam nem olhar para a camisa tricolor, quanto mais vesti-la.

É, o Mario conseguiu piorar o que já era a terra arrasada por Siemsen e Abad.

E dizer que fiz campanha para ele na esperança de mudanças radicais no departamento de futebol. Ah, se arrependimento matasse!

E agora só me vem à mente aquela célebre máxima de Nelson Rodrigues: “O TÉCNICO PODE SER ANALFABETO. BURRO, NÃO!”   

E O ODAIR, INFELIZMENTE PARA NÓS TRICOLORES, NÃO É ANALFABETO.

Agora, para espairecer um pouco, só nos resta recordar algumas das glórias passadas.

 

Histórias vividas com o Fluminense: 7 – O encontro com Ademir.


Agosto de 1964. 

Uma equipe feminina chinesa de voleibol visitava o Brasil. 

Invictas há vários anos fariam uma exibição no Maracanãzinho contra um adversário brasileiro, acho que uma seleção de clubes cariocas, se não me falha a memória.

Na época, minha noiva Verinha cursava a Faculdade de Jornalismo e recebeu a incumbência de fazer uma reportagem sobre o jogo.

Capixaba, recém-chegada ao Rio de Janeiro, não tinha a menor ideia de onde ficava o Ginásio.

Resultado: sobrou para mim, que tive que faltar a uma tarde inteira na faculdade para acompanhá-la na empreitada.

Comprei dois ingressos para as cadeiras, local de acesso mais fácil para tentar algumas entrevistas.

Não com as chinesas, na realidade atletas empregadas de uma fábrica, que só falavam o próprio idioma.

A esperança era conseguir encontrar algum intérprete ou representante da delegação.

Com o ginásio praticamente vazio numa quinta-feira à tarde, ficamos o mais próximo possível da quadra.

O jogo começara e logo de início percebi que seria chatíssimo porque as chinesas não davam a mínima chance para as adversárias. Nos últimos três ou quatro anos não haviam perdido um único set das partidas disputadas.

Enquanto Verinha olhava as jogadas com atenção, preferi observar a reação dos poucos espectadores presentes.

Foi quando vi o Ademir, ídolo do Vasco da Gama, mas também do Fluminense pela conquista do Supercampeonato de 1946.

Isso mesmo, o Ademir Marques de Menezes, o popular “Queixada”, ídolo de minha infância e de muitos tricolores, como o ilustre pianista Arthur Moreira Lima.

Mesmo sem saber qual seria a sua reação, resolvemos pedir auxílio, porque provavelmente esta seria a única oportunidade que teríamos para conseguir alguma ajuda.

Aproximamo-nos dele e contamos a dificuldade que estávamos tendo para conseguir qualquer contato que fosse com alguém da delegação que falasse português ou pelo menos arranhasse um pouco de inglês, talvez um dos patrocinadores, sei lá.

Ademir na época trabalhava na ADEG__ Administração dos Estádios da Guanabara e tinha livre trânsito no Maracanãzinho e também no Maracanã.

Ele foi de uma presteza incrível e ao final da partida, vencida facilmente pelas chinesas por 3 a 0, levou-nos até um dos agentes brasileiros da comitiva, que forneceu inúmeras informações importantes para a confecção do trabalho.   

Enquanto Verinha tentava obter o máximo de informações possíveis sobre as chinesas, Ademir e eu passamos a relembrar seus feitos na época em que defendia as cores do Fluminense.

Contou-me sobre as dificuldades do jogo final do supercampeonato de 1946, realizada no estádio de São Januário.

Frisou que o Botafogo também tinha um time muito bom, comandado por Heleno de Freitas, um dos maiores centroavantes que havia visto jogar. 

Ao relembrar o jogo do título Ademir aos poucos foi deixando de lado a inibição e cada vez mais emocionado contava os detalhes que lembrava do clássico decisivo.

“Foi uma partida muito dura, bem difícil. Todos os jogadores, tanto do Fluminense como do Botafogo deram o máximo de si, mas por se tratar da decisão de um supercampeonato a maioria estava bastante nervosa.”

“O Botafogo concentrou-se na defesa e fazia grande marcação sobre o nosso ataque, que mesmo desfalcado de Simões, ainda sobrava no campeonato.”

“Seu técnico mandou dois de seus defensores marcar individualmente a mim e ao Pedro Amorim. Lembro bem que Juvenal não descolou de mim quase o tempo todo. Para onde eu tentava ir aquela sombra sempre me perseguia. O mesmo acontecia com Pedro Amorim, às voltas com Belacosa, o outro escolhido para marcá-lo.”

“Diversas vezes dois atacantes recuavam para ajudar a defesa e as tentativas de chutes de fora da área esbarravam sempre na boa atuação de Oswaldo Baliza, o goleiro deles.”

"Nossa defesa também estava bem armada, de modo que o jogo deveria ser decidido no detalhe. E ele veio, ainda bem que para o Fluminense.”

“Nosso ataque procurava fugir da marcação cerrada com deslocamentos rápidos na esperança de conseguir alguma brecha.”

“Até que aconteceu. Paschoal e Pedro Amorim conseguiram envolver Belacosa e Juvenal ao ver nosso ponta livre quase na entrada da área, correu em direção a ele para fazer a cobertura.”

“Pedro Amorim foi mais rápido e passou a bola para mim, sozinho, perto da grande área e sem marcação alguma. Aí foi muito fácil, bastou correr em direção ao gol e chutar forte no canto do Oswaldo, que nada pode fazer.”   

“Na etapa final, nossa defesa não deu chances aos atacantes adversários, que não tiveram muita ajuda dos demais companheiros, talvez receosos da repetição do ocorrido no jogo anterior, quando o Botafogo ao conseguir o seu gol depois de estar perdendo por dois a zero, partiu a toda em busca do empate e acabou sofrendo o terceiro num contra-ataque mortal. Não sei, é só uma suposição”.

 


Depois de ouvir atentamente o seu relato, tentei forçar a barra e repeti as histórias que ouvira desde a minha infância de que ele seria torcedor do Fluminense numa tentativa de obter confirmação para o fato.

Afirmou que sua família era tricolor, seu time de botão na infância era o do Fluminense e que os dos dois anos maravilhosos passados nas Laranjeiras e a paixão de seu pai pelo Tricolor faziam com que o Fluminense estivesse sempre marcado em sua memória.

Mas, o grande período passado em São Januário o fazia pender para o Vasco da Gama.

Incrível, o herói de muitos tricolores era torcedor do bacalhau.

 

Heleno de Freitas e Ademir Menezes, as estrelas do supercampeonato.


Time da final: Robertinho, Gualter, Paschoal, Haroldo, Pedro Amorim,
Ademir, Telesca, Rodrigues, Careca, Bigode e Orlando "Pingo de Ouro".
                           
No dia seguinte da conquista a imprensa desportiva enaltecia o feito do Tricolor em suas primeiras páginas, como mostra a reprodução do jornal "O GLOBO", a seguir:




Transcrição do texto da foto: 

"Campeão o Fluminense – Com a batalha sensacional de ontem em São Januário encerrou-se o campeonato de 46. O Fluminense derrotando o Botafogo por um a zero sagrou-se o campeão do ano. Uma conquista inegavelmente justa, como atestam os números do empolgante certame.  No cliché aparecem três detalhes do espetáculo final do campeonato: à esquerda, Gualter abraçando o técnico Gentil Cardoso no vestiário após o jogo, vendo-se ainda os Srs. Dilson Guedes, Carlos Nascimento e Moraes e Barros, presidente do clube tricolor; ao centro, o team campeão, vendo-se enfileirados: Roberto, Gualter, Paschoal, Haroldo, Pedro Amorim, Ademir, Telesca, Rodrigues, Careca, Bigode e Orlando; à esquerda (na realidade à direita), uma fase movimentada da luta: Robertinho defende acossado por Heleno, que por sua vez é assediado por Haroldo".

Os números do Fluminense no Quadrangular final:

16/11 – São Januário: Fluminense 1 x 1 Flamengo

24/11 – General Severiano: Fluminense 8 x 4 América

30/11 – São Januário: Fluminense 3 x 1 Botafogo

07/12 São Januário: Flamengo 1 x 4 Fluminense

14/12 – Gávea: América 2 x 6 Fluminense

22/12 – São Januário: Botafogo 0 x 1 Fluminense 

Clube

J

PG

V *

E

D

G P

G C

S

Fluminense

6

11

5

1

0

23

9

14

Botafogo

6

8

4

0

2

7

5

2

Flamengo

6

5

2

1

3

9

12

-3

América

6

0

0

0

6

10

23

-13

* - Em 1946 vitória valia 2 pontos

Esgotado o assunto sobre o supercampeonato, perguntei sobre a perda do título mundial de 1950.

Ademir foi enfático em rebater todas as insinuações de que a Seleção tinha se acovardado perante a garra e as botinadas de Obdúlio Varella.      

Segundo seu relato, o time realmente parou de jogar na última meia hora. Não porque tenha amarelado e sim pelo cansaço causado pela exaustiva noite anterior ao jogo.

Na véspera da final, a Seleção foi deslocada para as dependências de São Januário para uma recepção a algumas autoridades.

Aproveitadores como os de hoje, políticos demagogos invadiram o cenário com o objetivo precípuo de aparecer em fotos ao lado dos futuros "campeões do mundo". Promessas de empregos públicos e outras benesses entusiasmaram a quase todos, que permaneceram comendo e bebendo até quase o amanhecer  e ignorando a necessidade de descansar para a grande decisão do dia seguinte.

Apenas ele e o Danilo Alvin foram para a cama por volta das dez da noite.

Há que se acrescentar que naquela época os salários dos jogadores eram ridículos se comparados com os de hoje, onde qualquer cabeça de bagre ganha bem mais que médicos, engenheiros ou executivos de grandes empresas.

O resultado não poderia ser outro, o time cansou e não teve forças para ganhar as disputas com os uruguaios, que levaram a melhor em quase todas as divididas.

Depois de uma tarde agradabilíssima, ele nos convidou a ir ao Maracanã para assistir ao jogo do Fluminense pelo campeonato carioca.

E depois de um lanche rápido e muita conversa, lá estávamos nós penetrando no Maraca pelas mãos do Ademir. Glória total.

O jogo foi duro. O Bonsucesso daquela época não era tão fraco como nos dias de hoje.

Foi o sétimo colocado no campeonato, ficando atrás apenas dos quatro grandes, do Bangu, vice-campeão e do América, sexto colocado.

Seu treinador armou uma retranca surreal, mas ao final ganhamos com um gol do Amoroso.

Ademir vibrou bastante com a vitória, nem parecia tão vascaíno como havia dito. Deve ter gostado também quando ao final do campeonato levantamos o caneco.




Final do jogo, hora de ir para a casa.

E por uma coincidência feliz Ademir ia para Copacabana, bairro onde morava a Verinha, o que nos permitiu dar carona a um dos grandes ídolos tricolores.

Pena que naquela época não existiam celulares e não pude registrar o encontro mágico.

 * * * * *

Nota: Enquanto pesquisava detalhes do jogo, que acredito que nenhum de nós tenha assistido, descobri no youtube um trecho da transmissão da Rádio Tupi feita por Ari Barroso e sua inconfundível gaita de fole. Para quem quiser conferir como eram as transmissões da época é só seguir o link: https://www.youtube.com/watch?v=sQeQuT5Pfnk  


Continua com: Ainda o encontro com Ademir.

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